segunda-feira, 30 de junho de 2008

Dia de Sol

E, ao me ver voando talvez vislumbre, pela distância, que é pequeno e, lança
Fere e sangra, descompasso
Notívaga manhã para ser oposição, sacrifício
Fazendo o não acontecer
Aqui na gruta todos os dias faz chuva, às vezes sol e chuva
Calor e sabor, esfria e dilui
Dia do sol ...
Gosto da chuva também, é preciso molhar, saber brincar em dias de sol e de não sol
Os raios de sol são lindos, contudo, se não inundam a alma o frio se estabelece
Compartilho meus itens contigo, deixe-me ver o que há, aqui dentro não tem redomas só proteção, por favor tire seus sapatos!
Hoje já sei um pouco mais, tem um pouco mais também... Minha mão é sua e sempre será, que sua opção seja, também, confiar.
Vislumbro a distância infinitesimal, só um passo, sei que é muito e é tudo.
Lá, naquele lugar onde já estivemos algumas vezes, é possível transcender, aqui também sim
Abra os olhos, agora não estou voando, estou aqui contigo. Venha, sinta, senta, conjuga, brinca comigo!

sábado, 28 de junho de 2008

Mudo

Hoje meus pensamentos ficaram mudos
O silêncio que se fez foi cortante
Era preciso, entretanto, parar para poder ouvir os sons que vêm de fora
Tem dias que se quer mais que mera reflexão, atendimentos de pedidos, cordialidades ou outras gentilezas
O som possível de se detectar foi tão quietinho que acordei com vontade de chorar

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Toccata e fuga

Iludimo-nos algumas vezes com a sonoridade de uma música... Invariavelmente, quando ouço algo procuro projetar em minha mente que tipo de instrumentos estarão a produzir tal vibração... no caso específico das tocatas (Toccata), peças musicais produzidas para um único instrumento, a ilusão pode ser ainda maior se o compositor for ninguém menos que Bach e, o instrumento em questão for um órgão de tubos...
Você será levado a acreditar que existe toda a congruência de uma orquestra e, ao abrir os olhos, verá solitários um par de mãos, um par de pés e um único e estrondoso instrumento...
Será por isso que transmite aflição e não acalanto? Penso que sim...
Tenho em mim alguns critérios para definir aos meus ouvidos o que é ou não uma boa música, longe de mim desacreditar o alemão, entretanto, ensaios musicais para evidenciar um único intérprete, por vezes, me agonia... (narizes retorcendo nas cadeiras ao lado... tudo bem, eu sobrevivo)
Voltando aos olhos, de quem ainda pode abri-los, não é crível que se possa perder a harmonia e, digo ainda, dentre os organistas e orquestradores, fico com os austríacos, discípulos que superam seus mestres!
Espero sempre em meus ouvidos a docilidade das harpas, o conjunto harmônico da orquestra, regida pela maestria da batuta.
É preciso estar com a alma livre e leve para voar e, com as asas abertas, entrar em comunhão com a densidade do ar, com ele se mesclar para que a unidade seja estabelecida e a vertigem do vôo em si, desapareça.
Quando se é ar também, quando se muda a densidade, o medo e a vertigem não têm mais sentido. Nenhum frio vem antes ou depois, é um novo lugar, uma nova perspectiva, é a perfeição de ser.
O piano sempre fica melhor regendo e sendo regido, a sensação da unidade e a neblina pairando sobre todos os instrumentos.
Desde a tenra idade não me sentia à vontade em dividir meus espaços com ninguém, me é muito fácil adentrar a alma alheia e, da mesma defesa sou órfã, por isso mesmo traço riscas e construo muros.
Olho bem para o que vejo e sim, é lindo.
Penso que, quanto ao mestre, possivelmente por sua privação da visão - o medo do imaginário para quem já enxergou antes - pode ter atingido sua capacidade de se mesclar. Nada contra os solos, até porque é meu constante “passatempo”.
Também existe o momento de fechar os olhos e o momento de abri-los, tudo depende em que santuário estejamos colhendo o abrigo.

sábado, 21 de junho de 2008

Meu Amor

Imersa em meus pensamentos, enquanto tratava de algumas atividades cotidianas, dentro do paralelo, estava a imaginar o poder do chamado do amor...
Não, nada de superficial... o chamado tem que ser sincero, puro e profundo senão não chega aos ouvidos da alma.
Intenso deve ser, pois ao dá-lo irá também receber, é preciso haver espaço para abrigar o ser amado. Então não, nunca emita o chamado sem sentido, pois ao ouvi-lo a alma ganha desprendimento.
Faz-se necessário ainda, além do coração, a mão firme e acolhedora, pois nem sempre o trajeto final está dentro, é somente abrigo passageiro.
Tenho expressado à exaustão meu repúdio total às drogas e seus efeitos, entretanto, ao interpelar-me em busca de alguns cobres, abaixei o som e o vidro, desculpei-me e nada pude oferecer além de um agradecimento sincero e meus parabéns à iniciativa daquele voluntário no farol, aquele que, pelo olhar estremecido, sei que se pôs ao ofício para não cair em tentação...
Interessante que, mesmo sem nada de sólido ter recebido, agradeceu-me dizendo: Obrigado Meu Amor...
Veio-me, mais uma vez, a confirmação do poder do chamado, onde se me dá o necessitado o que precisa receber..., por vezes o único elo existente para viver ou morrer.
É certo, dúvidas não tenho, é essencial e indispensável que, pelo menos uma vez durante a vida, alguém lhe chame: Meu Amor.
Meu Amor, num gesto ou mesmo como exercício da palavra.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A carta

Fui dormir pensando em como eu poderia fazer para mostrar meu desejo, de forma tal a transformá-lo em realidade
Antes disso confirmei uma alma e a cristalizei para o eterno
Sabe o motivo de chorarmos? É uma forma de libertar quando não se tem mais o que fazer para que se fique
Tomara seja verdadeira a lenda de que quanto pior o pesadelo, melhores as notícias...
Neste pesadelo, dilaceram-me a alma, esquartejaram minha mente e banalizaram meu corpo, era tudo tão doloroso que já era absurdo mesmo lá, enquanto pesadelo
Saí às ruas inda assim, arrastando meus farrapos e derramando meu sangue, porque mesmo naquele estado ainda me parecia pior o sentimento do outro
Tomou-me como alguém merecedora da mutilação por não acreditar no que lhe era dado
De um instante a outro me vi perdida num labirinto, muitos me falavam ao ouvido, disseram-me sobre meu corpo e minha alma e traçavam comparativos, aproveitando-me sem nenhuma redoma, alguns olhares eram perplexos, palavras de misericórdia quando muito, desmentiam suas singelezas
Quase sem temperatura, sem pés ou mesmo alma, andei andei andei para não deixar perder-se a verdadeira essência daquilo tudo, e como numa tormenta encontrei-me com o medo e o desespero...
Fui paralisando e esfriando e, mesmo assim, algo ainda me era latente, enfrentando aquilo tudo que me feria, precisava de algum abrigo mas dentes e rosnados ferozes me perseguiam
Já sem forças e agora sim sentindo toda a dor, minhas pernas já não me obedeciam, sequer minha mente podia me acompanhar, sobrava-me somente a alma...
Fui com a voz que me restava dizendo o que era verdade nesta vida, o que era engano desmentia e, mesmo ao longe e intacto algo o tocou
Apiedou-se por um segundo do meu pavor, o suficiente para se aproximar e retirar mais um naco de carne fria
Neste instante vi dois companheiros observando, deles também tentou apossar-se, mas logo a figura de uma doce criatura carregou-me para dentro
Disse-me ela que estava mesmo a escrever-me um bilhete dando notícias de algum cuidado a ser tomado
Tirou-me tudo o que antes me haviam dado, abstraindo aquele meu estado, falava-me como se ainda fosse inteira
Discursava sobre o que pode e o que não adianta ser doado, entregava-me novos instrumentos
Lia em meus olhos o desespero pelo despreparo encontrado e disse algo sobre o obvio
Olvidou-se, entretanto, de dizer para que serviam aquelas novas ferramentas
Deu-me algumas anotações e saí porta a fora
De volta ao lugar de origem, minha alma, única sobrevivente, mostrou-me onde havia deixado meu corpo e minha mente
Chorei copiosamente e, mais uma vez, parti.

Pausa


Plantei
Colherei?
Não sei.

Preciso agora passar pelos campos já semeados
Recobrir a grama, pois o inverno chegou
Volto no verão, verão

Já se foi a metade, mais que ela
Tenho de ir
Vestirei meu chapéu e hibernarei meus sonhos

Quem sabe de mim, saberá onde me encontrar, sempre será bem-vindo e jamais abandonado.
Vou praticar a prática, vou ali já volto.

Não é desistência
É apenas o necessário


Solidão

Vem chegando, noite alta.
Desembarco, ainda inundada pelo glamour da viagem insólita
Ao descer, entretanto, dei-me conta de ter comigo apenas um par de pés...
Radiante pensei poder caminhar pelas ruas impunemente...
Aos amigos que passavam apressadamente rogava-lhes a companhia singela, meus tacões desenhavam a marcação, mas isso a ninguém interessa.
Houve até quem se compadecesse e se rendesse minimamente ao compasso imprimido, mas nada que durasse tempo suficiente para o abrigo.
Poderia descrever-lhes um a um, contudo, a eles, talvez não passasse de um tempo lento e disritmado, típico daqueles seres solitários que hora voam alto noutras repousam os pés de leve para poder apreciar
Poderia comemorar ao encanto infinito, mas de brusco me arrancaram os sonhos sem sentido
Materializei néctar em cálices de vinho, mas não escapei dos efeitos do martírio.
Sem outra opção, pedi a um amigo, leve-me por favor em sua carruagem, pois não demora o encanto será desfeito.
Não podia acordar do que para mim era real, mas o sonho que não é meu despertou-se.
Depois querem saber o motivo pelo qual elas, as fadinhas, desvanecem...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

domingo, 15 de junho de 2008

Sutil

Confesso que não quero ler o que está escrito, preferia redesenhar misturando suas letrinhas, aí já é a esperança que me move, mas sei de antemão que não se pode desejar coisas impossíveis.

Fui procurar apoio naquelas insistentes que me acompanhavam outro dia, já evaporaram, mas deve ser primavera em algum lugar do mundo, esta é minha ilusão!

Aos que escrevem com sentimento, impossível não deixar uma gota de sangue em cada texto, senão é ser somente poeta.

Se o preço a pagar for este, morrerei prematuramente, pois não concordarei jamais com isso...

Cada um tem sua própria ilusão, circunstância inventada para que a sobrevida se faça, uns acreditam na unidade e no indivíduo, outros no auto-alimento, há ainda aqueles que despejam um pouco em tudo e saem colhendo, insisto novamente na essência e o motivo, mas parece que realmente tudo ficou esquecido.

Sobreviver, a despeito de, é o que me arranca mais uma camada.

Ficar por aqui é cruel demais e remete para tudo o que não quero, entendo melhor e sou menos compreendida.

Ao que se apresenta: pânico. Disfarço.

E, daqui, meu suplicantes olhos, esperando o milagre, ficam com torcicolo de tanto olhar para ver se chega.

Há os que me vejam como rocha e os que simulam ver o que sou.

Não sou dada a ficar aqui do lado de fora, mas é este meu exercício atual.

Dispositivos para viver.

sábado, 14 de junho de 2008

Necessário

Aos que saem e se vão, a paisagem lhes cai como remédio e os ventos como anestésico.

Aos que ficam resta-lhes a dor do espaço aberto e nenhum sopro de alívio, é como uma vertigem.

Eles, os que ficam, possuem esta característica da elasticidade, como o ventre materno, mas o tempo é outro, diferente daquele dos que saem.
Onde está o desequilíbrio nisso? Está em não ser sempre útero, é também preciso ser feto.
A dor, dilaceração e hemorragia unilaterais, se constantes, desnutre e causa anemia, é necessária a nutrição placentária também.
Há muito mar e pouco porto, mas quem é porto também precisa aportar e é esta surdez que nos aflige, pois bóias não são raízes, os píeres também sabem voar.
Por isso eles, navegantes ou voadores, deleitam-se naqueles em quem, ao depois, deixam seus vazios, sem saberem que a fome que lhe saciam também existe lá.
Pode-se dizer que é da natureza de um e de outro ser porto ou aportar, mas replico num grito e nada ouvem, não é isso, não é vida, é somente o que se me dá.
O que se ouve e o que se vê, quase sempre, é o que se quer, não adianta mostrar, mas insisto: sua sede não pode sempre prevalecer ou ser vencida.
Refoge-lhes a necessidade simbionte dos indivíduos, criaturas dentro de invólucros únicos e originais, ignoram suas essências e o motivo, pondo-se avidamente somente a chuchar.


A paz do porto é merecida por todos e, se vez por outra um lado não for o outro, logo todos teremos somente o mar.
...

Sutura - Ensaio número 5

Ainda sinto seu calor em mim
Um amor feito, incontido
Pleno de deleites, veio e ficou comigo

Ah vida...
Roçando-nos sem pudores com seus presentes, fustigando a carne e despertando o desejo, vem se apresentar só para que não tenhamos dúvidas de que ela existe.
Como não me render ao santuário, se é lá que o tenho mudo aos meus ouvidos?
Subserviência da alma, êxtase aconchegante da forma mais pura de ser, plenitude...
Hei de conformar-me com esta limitação imposta e, neste contexto, poder alcançar o seu e meu âmagos.
Dança comigo?

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Despindo, despedindo...

Resolvi, ontem, abandoná-la.
Mais que isso, descobri que nossas trilhas jamais se confundiram, ela me foi muleta em todos os sentidos, ora eu a arrastava, ora ela me levava em seu dorso.
Todas as vezes que me deixei carregar, caiam-me preciosidades...
Perdi muito, de tanto lhe montar o dorso, cheguei a duvidar da existência de minhas pernas, acho que por isso ganhei medo de dançar e dançar.
A consciência da vida em circulo e em teias me arrebatou de sobressalto, pois ela podia fazer desenhos sobre minhas pegadas, mas não sobre as próximas ocasiões.
Fiquei em concha, mas agora não mais, quero saber o que se me revelam os búzios!
Fazia parte da promessa de não deixar de acreditar, mas a dor e o medo turvam tudo.
De tão amochada estava quebrando o que não faz sentido
Os vergões na carne fizeram-me abstraí-la, vem então seu moço e me fala do equilíbrio entre eles: corpo e alma.
Deixando meu templo penar e minha alma voar tornei-me desinteressante, pois tentei separar quem não vive sem o outro, um quase morreu e o outro ficou sem rumo...
Com um pouco de sorte todos serão nuvens e, de lá da minha ilha, até que ficam bem quando em seus devidos lugares...
Todos aqueles fantasmas enfrentarei, um a um, mesmo que quixotescamente, não mais me desviarei de nenhum.
Vou redesenhá-los e fazê-los mais bonitinhos, agradáveis a mim e ao mundo.
Falo com esta voz de criança, pois é assim mesmo que me sinto sem este monte de roupas, foi exatamente lá que fiquei muito tempo esquecida.
Já lhes falei sobre a folha de palmeira?

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Improviso

Bom seria se todos os dias fossem dia dos namorados, percebem? É quase igual natal, mas tem um Qzinho de sex appeal no ar...
Ah sim, também sinto aquela angustiazinha de quem não tem com quem passar, mas pelo menos tem em quem pensar...
Embora o trânsito esteja ruim do mesmo jeito que é todo dia, até mais talvez, não ouvi buzinas irritantes...
Procuro todos os anos reunir pessoas, quem tem par e quem tem ímpar, para comemorar este dia, mas este ano não consegui porque o fisco ficou me importunando.
Seja lá como for, levanto um brinde ao amor!
Feliz Dia dos Namorados!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Lacerante

E da candura só restou a do batismo, pois quando ouço os ecos ressonantes da mudez da sua voz vejo o quanto dilaceraram-me os olhos e ouvidos.
Hoje o que sou confunde-se com o que estou e, neste desatino, já não sei onde estão minhas sapatilhas.
A percepção da delicadeza fascina e causa estranhamento ao que antes via dentro, o que fazia fugir.
Há tanto partida que o enlevo do deleite que sinto me angustia, não sei se vem de dentro ou se são externos esses estigmas, continuo procurando o melhor no que se me fazem e, para não aborrecer, no mínimo é encantamento.
Pedaço de dor na alma e na carne, lambo suas feridas sem saber ao certo onde começam e onde terminam.
Como não poderia faltar, trago comigo a esperança do rabo da lagartixa, será possível também mergulhar no que é tão profundo e restaurar-se do medo da chegada.
Aprender a trilhar pelas mesmas alamedas, colhendo as imagens que se perderam da referência de mim mesma.
E a vida? A vida, titereando, vezes pensa, noutras recompensa, enreda-nos em seu contexto emaranhando nossas vontades e pensamentos, iludindo-nos com o que parece ação e reação.
Faço que aceito, minha fuga está naquilo que, se declaro, talvez também tentem corromper.

domingo, 8 de junho de 2008

Comutando

Deparei-me, por várias vezes, com pessoas e seus abismos
Agrada-lhes aquele ventinho refrescante que vem, mas é abismo
Deparei-me, por várias vezes, com pessoas e seus venenos
Agrada-lhes aquele torpor que vem, mas é veneno
A certeza que se tem, pode ser dúvida
Preservação que se lhe presta, pode ser furto
Há uma linha imaginária e seus muros
O veneno pode ser remédio
A árvore mais forte é aquela que se verga
Não tem porque, é porque sim
O que lhe traz sensação de liberdade é sua prisão
Dando que se recebe, não sendo roubado
O fim é um começo necessário
É preciso drenar as bolhas para continuar caminhando
Escolher não é desespero
Quando coração e alma estão preenchidos não há espaço para o mundano
Purpurinas para cima e para cima de mim
O medo que você tem, ele também, o que ele também, você tem
Não deixe que abusem de sua bondade
Pintar revela, escrever quase sempre é uma incógnita
Não se deve ser mais real que o rei
Não há nada mais gratificante do que se entregar a coroa
Há sempre aqueles que preferem não por a mão nisso

Há, ainda, aqueles que se recusam
O que é para você é para você, se não é, não é
Existe uma grande diferença entre o que é a vida e o que não é
Cuidado com os lagartos
Deparei-me, por várias vezes, com pessoas e seus abismos
Agrada-lhes aquele ventinho refrescante que vem, mas é abismo
Deparei-me, por várias vezes, com pessoas e seus venenos
Agrada-lhes aquele torpor que vem, mas é veneno

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Noite manhosa

E a noite resolveu chorar só porque lhe dissemos que não teríamos dores de cotovelo...
Chora não menina! Até que é bom, recupera e ainda limpa!
Mas ela não quis saber, fez barulho até cansar... tanto que relaxa...
Dorme, dorme, estou aí com você, teimosa feito criança, de quando em quando se lembrava que não teria suas dores e, novamente, tomava fôlego e voltava a chorar...
Veja menina, hoje você é nosso elo, está sobre as nossas casinhas! E ela, parecendo não querer entender, enchia mais uma vez seus pulmões e muita água caia...
Como fazer entender essa menina que a vida é esta mesmo, tem-se que ser pragmático, nem todo dia é dia de dores de cotovelo.
Venha aqui no meu abraço, vou lhe explicar como faço: Feche seus olhos menina! Isso assim mesmo, agora aproveita esse afago e abre seus olhos lá longe, leva ternura e um cafuné, entrega a quem de direito, volta e se acalma!
Agora mais conformada, resolveu fazer de suas lágrimas notinhas de uma canção de ninar.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Síndrome do hipopótamo


Desta vez chamarei de síndrome, pois não gostaria de cair na vala comum de mais um “complexo”...
Talvez até porque o “bichinho” adequado à sensação seja mesmo uma “Dinossaura” desajeitada, daquelas bem, bem pescoçudas!
Gargalhadas ao vento, pois agora me ocorreram o Jotalhão e a Tanajura... Se ao menos pudessem eles me ensinar algumas dicas!
Li em algum lugar que, para fazer o medo virar pó, é necessário desmistificá-lo, como naquele exercício na sala dos magos de Harry, ridicularize-o e ele cederá. Será?
Condenaram-me recentemente a não mais me envergonhar de meus sentimentos e coisas e tal, com isso, até exagero e carrego nas tintas, afinal quem nunca comeu melado, quando come ...
Pego, ainda, carona neste doce de mel e lembro-me quão escorregadio pode ser, derramado agora pelo chão onde estão as prateleiras com a fina e delicada porcelana oriental.
Ah Dona Dinossaura, de saltos antiderrapantes, veja lá! Não se mexa sem cuidado, por favor, olhe os cristais sobre sua cabeça! Cuidado! Cuidado!
Tudo tão lindo e puro (tudo tudo tudo – djavanessência pelo ar), mas veja só, como serão mesmo as mãos de uma Dinossaura? Nunca vi no detalhe, serão bípedes ou quadrúpedes, serão elas delicadas o suficiente? Se ao menos a espécie for daquela que evolui para o pingüim, acho que sim! Basta-me podar as garras para poder lhe massagear.
Desconfiava sim que ante a situação, esta princesinha, mais que o normal, apelasse para o reino animal, mas nada de sapos ou cavalos brancos, muito menos os pôneis de trancinha, vejam só, já somam mais que cinco! É a anti-regra.
Tanta fragilidade exibida que até põe susto! Sustinho! Sustinho! Passou... passou... Afaga-me os cabelos e volto a ser florzinha! Dou um pulinho, um giro no ar e sapeco-lhe um beijinho! Viu? Suas prateleiras continuam intactas!
Daquele elo entre o desejo e a lei, nem vou falar, paro por aqui!

domingo, 1 de junho de 2008

Súplica do Sapo


Agora estou abrigada pelo desconforto do sentimento de culpa, por que será que eles existem?
A mágoa não sei mais se ela é minha ou sua, só sei que desde que ela fez vez em nossas vidas um monte de faltas estamos cometendo. Hoje penso que algumas coisas estão irremediáveis, como a falta de diálogo e contato, pela distância que nos separa, mas esta distância que muitas e muitas vezes transpúnhamos dentro de uma pilha de pneus no porão, hoje é infinitamente grande para minhas projeções.
Engraçado que, apesar dos pesares tenho uma confiança cega em você, daquelas pautadas em tempos que cada vez mais desbotam-se da memória.
Faltam-me forças e visão para voltar a procurar e vislumbrar a trilha onde perdemos nossa cumplicidade e unidade, é como se estivessem presentes todos os ingredientes para o bolo mas não sei onde está a receita.
Jogo tudo dentro do caldeirão, lanço lá toda a nossa capacidade de amar, derramo sobre tudo um choro sentido, brilha e rebrilha e só sai pirita...
É a vida, é a vida! É não, não é, não pode ser! Muita cobrança e ironia, reprovação, medo. E amor? Não?
Acho que vou voltar lá na pilha, usar de minhas ultimas energias, para ver se viajando consigo achar novamente você e sua luz...
Será que deteriorei a tal ponto e fiquei ofuscada pelo seu brilho? Pois é certa e indubitável a luz que pressinto. Talvez tenha crescido e eu me esquecido? Não sei, só sei que daqui de onde estou não lhe vejo mais, não lhe toco mais, não lhe alcanço, resseco um pouco todo dia, desidratando pelos olhos e pela alma.
Deve ser culpa da minha miopia que leva você para longe um pouco mais a cada grau de dioptria.
Volta!!! Volta!!! Volta!!! Escuta essa voz abafada pelas engrenagens da vida...
Só tenho um argumento: Te amo um pouco mais a cada dia!
Leio e releio, penso e critico, está tudo tão dolorido que talvez só consiga mesmo arrumar mais alguns centímetros...
O tormento do medo é o pior que se pode ter como sentimento. Não estou tendo força nem visão para dele me despir, como um sapo querendo convencer o príncipe a lhe dar um beijo, cheio de verrugas e brotoejas, asqueroso e nojento.
A única magia que pode quebrar esse encanto maldito é aquela advinda da crença de que ainda valemos a pena, por favor não me engula, apenas me arranque dessa forma que tanto temo e é meu pior pesadelo.
Preciso do verde sim, mas não ser, somente ter um tiquinho! Não me condene ao resto da vida do verde!

Ensaio número 2

O calor das cores mesclado ao frio desta sensação arremessou meus pensamentos e acabei mergulhando numa outra que consome incessantemente.
As intenções são, invariavelmente, coloridas e as sensações, por sua vez, profundamente maiores que o ato.
O frio que hora me envolve é imenso se comparado àquele aconchego do ar canalizado entre as caternárias amarelas.
O anseio entorpecido pelo toque suave da pele, os corações descompassados unidos pelo abraço sereno, palavras silenciosas ditas ao meu ouvido direito.
O equilíbrio desesperador da simetria e o desejo calado daquela que é única neste contexto, fazendo-me projetar o calor em poder tê-la! Reclama sim meu lado esquerdo aquilo que o direito insiste em tomar só pra si, conjeturando se ela, quem sabe, perdendo-se pelos caminhos não se renderia.
A tortura vitimada por um ensaio fotográfico sem sentido, muita encenação e nenhuma saciedade, sofrimento absoluto ao projetar a imensidão do caos em ver frustrado o desejo mudo daquelas que são ímpares...
Calor, frio, tato, sentimento, torpor, risos, promessas.
Novamente torpor, o furto e uma entrega.