quarta-feira, 25 de junho de 2008

Toccata e fuga

Iludimo-nos algumas vezes com a sonoridade de uma música... Invariavelmente, quando ouço algo procuro projetar em minha mente que tipo de instrumentos estarão a produzir tal vibração... no caso específico das tocatas (Toccata), peças musicais produzidas para um único instrumento, a ilusão pode ser ainda maior se o compositor for ninguém menos que Bach e, o instrumento em questão for um órgão de tubos...
Você será levado a acreditar que existe toda a congruência de uma orquestra e, ao abrir os olhos, verá solitários um par de mãos, um par de pés e um único e estrondoso instrumento...
Será por isso que transmite aflição e não acalanto? Penso que sim...
Tenho em mim alguns critérios para definir aos meus ouvidos o que é ou não uma boa música, longe de mim desacreditar o alemão, entretanto, ensaios musicais para evidenciar um único intérprete, por vezes, me agonia... (narizes retorcendo nas cadeiras ao lado... tudo bem, eu sobrevivo)
Voltando aos olhos, de quem ainda pode abri-los, não é crível que se possa perder a harmonia e, digo ainda, dentre os organistas e orquestradores, fico com os austríacos, discípulos que superam seus mestres!
Espero sempre em meus ouvidos a docilidade das harpas, o conjunto harmônico da orquestra, regida pela maestria da batuta.
É preciso estar com a alma livre e leve para voar e, com as asas abertas, entrar em comunhão com a densidade do ar, com ele se mesclar para que a unidade seja estabelecida e a vertigem do vôo em si, desapareça.
Quando se é ar também, quando se muda a densidade, o medo e a vertigem não têm mais sentido. Nenhum frio vem antes ou depois, é um novo lugar, uma nova perspectiva, é a perfeição de ser.
O piano sempre fica melhor regendo e sendo regido, a sensação da unidade e a neblina pairando sobre todos os instrumentos.
Desde a tenra idade não me sentia à vontade em dividir meus espaços com ninguém, me é muito fácil adentrar a alma alheia e, da mesma defesa sou órfã, por isso mesmo traço riscas e construo muros.
Olho bem para o que vejo e sim, é lindo.
Penso que, quanto ao mestre, possivelmente por sua privação da visão - o medo do imaginário para quem já enxergou antes - pode ter atingido sua capacidade de se mesclar. Nada contra os solos, até porque é meu constante “passatempo”.
Também existe o momento de fechar os olhos e o momento de abri-los, tudo depende em que santuário estejamos colhendo o abrigo.

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